a ferro, fogo e alma…

Flores de Ferro

Pétala sobre pétala, em concha bem definida. Flor organizada, civilizada.
Haste coroada com um turbante, ordeira na sua maturação.
Troféu de conquista da terra ao mar, distribuída por cores, tonalidades e ressonâncias, de modo a celebrar a intenção humana.
O desejo de admirar a Natureza na sua forma estruturada, em largas superfícies horizontais.
A tulipa, mesmo aberta, permanece contida na sua cápsula de luz.

Azul, violeta, roxo, azul eléctrico, azulão, cores raras no jardim. Centro negro, amor-perfeito, poção mágica de momentos suspensos, imaginados.
Trevo vestido para a noite, envolto em mistérios e aspirações, por vezes simples expressões de sentimentos declarados.
Olho escuro, pétalas saturadas de pigmentos anil, a imitar o céu em crepúsculos de verão.
Sonhos de água e anoitecer, promessas suaves de um amanhã mais luminoso.

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Chapéu de fada, espécie de trompete vegetal, virado para baixo como Narciso a olhar para si próprio na margem de um lago.
Da sua abóbada saem sons de encantar, melodias de cordas tocadas por duendes travessos, que aproveitam a ressonância para improvisar.
O recorte do sino difunde as notas que se propagam, enquanto a vibração do estilete fornece a tonalidade e o ritmo, como se da coroa surgisse um instrumento de sopro.
As fadas voadoras dos campos usam estes chapéus amarelos, que as protegem dos aguaceiros de verão.

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O dia transforma-se em noite. As nuvens deixam aos poucos os reflexos cinzentos para adquirirem tonalidades lilás. O mesmo vento sentido na serra parece varrer o céu, deixando-o estendido, esticado nas suas nebulosidades.
O ar arrefece a cada minuto que passa, lavando os grãos de poeira, fazendo com que as plantas se concentrem no solo, onde ficam menos vulneráveis à intempérie.
As pedras enormes, lisas e marcadas pela erosão fornecem alguma protecção. Conhecem os ventos, formam nichos de correntes de ar onde se escondem plantas e animais, prontos para passar a noite em quase hibernação.
Nas encostas fustigadas, no meio das ervas térreas, ondulantes, abanam os cardos, firmes nos seus caules agrestes. As suas copas roxas ligam-se à chegada da noite, aos múltiplos aromas da urze, a uma paisagem inteira, intensa, solitária.

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As pedras brancas da calçada organizam-se em altos e baixos no largo escondido atrás do castelo. O fim da tarde trouxe uma pequena brisa de verão que solta ainda mais os vapores do carvão. De um lado ao outro das varandas suspendem-se linhas com triângulos de várias cores, e as concertinas de papel abanam ao sabor do vento, formando arco-íris em espiral.
Há uma efervescência no ar, que prepara o desenrolar da festa. As ruas respiram, por enquanto sem multidões.
Os manjericos espalham-se nas bancas, com os seus poemas de amor.
Cada vaso traz consigo um cravo de papel colorido, o cravo da liberdade.

Explosão de cores ao tom mexicano, de formas multi-raios. Padrões repetidos de pétalas dobradas a preceito, cuidadosamente envolvidas em elegantes combinações.
As dálias propõem união e partilha, fogo de artifício, caleidoscópios, divisões ao infinito como as estrelas, os flocos de neve e os desenhos geométricos.
Arte floral medida a graus de grandeza, parecem rosáceas de vitrais refletindo a luminosidade, espalhando feixes de cor de dentro para fora.

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Sempre que a brincadeira começava, os miúdos separavam-se, seguindo trilhos diferentes à procura da dedaleira mais próxima.
De repente, paravam os risos e os gritos, calavam-se todos para não serem descobertos, apanhados uns pelos outros nos duelos de estalinhos, para poderem ser eles a investir os golpes sonoros.
Era preciso encontrar os cachos rosados, retirar a flor com cuidado a partir da extremidade, e fechar as pétalas, comprimindo o ar dentro da campânula.
Depois, abria-se guerra e nos momentos seguintes surgia o caos, com perseguições e escorregadelas.
Os estalinhos eram rebentados nos ombros, nos braços, na cabeça, em busca do maior impacto.

Permanece resistente no quintal, onde ocupa um lugar ao sol. As folhas sólidas, as flores enérgicas ecoam os ritmos tropicais de calor, humidade e claridade.
O azul e o laranja da Ave-do-paraíso lembram essas selvas onde tudo se gera com uma energia expansiva, onde até as plantas imitam os animais.
A flor da estrelícia disfarça-se, ao longe, desse pássaro colorido, dessa cabeça atenta olhando em redor.
A sua forma exuberante chama-nos para um lugar quente, aberto, abundante, onde se sente a vida a nascer. A cada momento.

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O corredor das abelhas conduziu-nos até um campo de girassóis gigantes, todos com uma leve inclinação para cima. As suas coroas apontam para o mesmo ponto, uma direcção algures no céu totalmente azul.
Aquilo que parece uma superfície desenhada com réguas curvas resume-se ao conjunto apertado de pequenos filamentos onde fervilham milhares de bichinhos.
O calor aperta, ouvem-se grilos que soltam os sons mais estridentes, pedindo apenas uma pequena brisa.
A claridade inunda a população de admiradores do sol, que assistem, atentos, a este espectáculo surpreendente.

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É de manhã. A flor de muitas flores brota da terra em balões azuis, lilás e cor-de-rosa.
Por toda a margem da estrada da ilha seguem-se fileiras destas armações de canteiro, que transformam a rua num jardim.
Na frescura da manhã, ainda restam gotas de água nas folhas largas, nas múltiplas pétalas.
Todo o vento, lá ao fundo o mar.
As flores que os gigantes oferecem às suas amadas, em ramalhetes enormes.
A combinação de sol e chuva só poderia acelerar todo o processo.
Nas manhãs de verão, bem cedo, quase que as vemos crescer.

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A casa branca tinha um beiral enrodilhado onde as andorinhas faziam os seus ninhos.
Lá atrás, uma enorme palmeira centrava o jardim e, para lá chegar, era preciso descer uma escada de ferro que chiava em certos degraus.
De um dos lados, havia um corredor de pedras desalinhadas, por entre as quais cresciam ervas e passeavam caracóis. Do outro lado, duas ameixeiras, que faziam de baloiço, casa na árvore, milhares de brincadeiras.
As janelas aos quadradinhos de vidro fosco reflectiam o abanar das folhagens.
Um dos canteiros abarrotava de jarros, branco-tecido, rodeados de folhas luzidias.
Desenhados com um único traço, de abas largas como os chapéus antigos, enchiam o jardim de harmonia.

Flor solitária, completa, sem folhas. Pétalas expressivas, porte tímido, determinado. Um encontro entre forma, cor e originalidade, que sugere admiração.
Reconhecimento da fragilidade de todas as manifestações efémeras, representação de formas evolutivas submetidas a ciclos florescentes.
Um exemplo de que, a partir de um ponto, pode formar-se um todo harmónico constituído por partes complementares, que se edificam na sua beleza única.
Expressão de movimentos dançantes, líricos.
Flor para olhar, para acalentar momentos felizes.

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Fecham à noite, reabrem de dia, sombrinhas de hastes estreladas, preferidas de pássaros e abelhas.
Na constante expectativa dos namorados, são estas as flores que eles desenham nos seus cadernos de escola, são delas as pétalas que predizem: bem me quer, mal me quer, muito, pouco ou nada…
São também as primeiras flores que os bebés colhem nos mais precoces passeios. Os pais dizem-lhes: “olha, isto é uma flor”, e daí em diante os bebés passam a reconhecer essa forma inconfundível, a partir da qual conhecerão todas as outras.
Os malmequeres cobrem os campos verdes com pontinhos brancos, amarelos, como estrelas num céu limpo.
São colares e coroas de todas as primaveras.

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Flutuam em lagos espelhados, pequenas rampas de lançamento para rãs e sapos, superfícies onde descansam libelinhas durante um milésimo de segundo.
Planta anfíbia, ao ar e à água, planta submersa que espreita ao sol, procurando o melhor dos dois mundos. A flor abre-se de par em par nas horas de luz, fechando-se com o crepúsculo, recolhendo-se em botão.
Os peixes vermelhos deslizam pelas suas ramificações, presas de forma invisível às partículas aquáticas.
Planta de águas estáveis, quase paradas, que se estende pelo tempo e prolonga memórias de reflexão.

O palácio de vidro de eras distantes alberga as mais variadas espécies. A luz solar que entra pelas paredes e tetos de vidro e a água pulverizada por regadores especiais fermentam-lhes o crescimento.
No calor húmido da estufa, surgem mais espessas as folhas, mais vivas as cores. As plantas, protegidas, desenvolvem-se sem marcas, sem feridas, como nos livros de encantar.
Princesa perfeita vinda de um conto de fadas, a orquídea vive nessa redoma com uma nobreza vertical.
Simétrica como uma borboleta, é também manipuladora de paixões.
Vestida de cores de bailarina, emerge do caule numa dança invisível, procurando rodopiar em direção ao centro das atenções.

Despenteadas, amarrotadas, demasiado leves, pincelam com pontos vermelhos a cor terra das searas.
Anúncios de verão, vestem os campos de uma promessa de sonhos cumpridos.
As papoilas selvagens, despenteadas, vermelhas cor de vestidos de gala, aparecem livres junto às ervas rasteiras, junto às espigas das colheitas.
Trazem o vermelho-vida, o preto-forte, a dança das cores ao vento.

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Eu quero ir pelo caminho das rosas. Mesmo que haja vento, mesmo que tenham espinhos, mesmo que seja mais longo o percurso.
Nesse desvio eu posso cheirar todas as pétalas, camada após camada, posso tentar adivinhar se cada rosa é de veludo, de seda ou de cetim.
É certo que paro mais vezes, que me arrisco quando me aproximo demais.
Mesmo assim quero ir pelo caminho das rosas.
Ajuda-me a procurar a beleza, a abrir o coração.

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